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Fake News viram um bom “me engana que eu gosto”

22/10/2018

Fake News viram um bom “me engana que eu gosto”

Costumamos enfrentar pressões para nos comportar de maneira condizente com o compromisso assumido. E uma boa maneira de a pessoa ficar bem consigo é repassar o que ela acredita, mesmo que embalada em mentira.

De tanto falar em fake news, aliás desde a eleição de Donald Trump, uma coisa parece ficar clara para quem não se deixa levar pelo passionalismo do momento eleitoral tão polarizado no país. A tal da notícia falsa está mais para um “me engana que eu gosto”. Como?

Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco, deu a letra em artigo na Folha de S.Paulo. Ele invocou o cientista político Adam Berinsky, que escreveu “Falando a Verdade Sobre Acreditar em Mentiras”.

O dilema de Berinsky é o seguinte: “Quando as pessoas circulam fake news estão revelando crenças arraigadas ou trata-se apenas de “respostas expressivas” voltadas para demonstrar sua rejeição a políticos e políticas, e não crença genuína em informação falsa?

A conclusão do cientista, que me cala fundo, é que ao receber e compartilhar fake news nas suas redes elas estão refletindo crenças arraigadas. No seu modo de ver, só “pegam” quando ancoradas em uma estrutura de crenças estabelecidas. Ou seja, me engana que eu gosto.

Essa postura de ser mula do tráfico, no caso repassar informação mentirosa em vez de drogas, é explicada também no best-seller “As armas da persuasão”, de Robert Cialdini. Trata-se do princípio psicológico do compromisso e coerência.

O que ele quer dizer com isso? Depois que fizemos uma escolha, enfrentamos pressões para nos comportar de maneira condizente com o compromisso assumido. E uma boa maneira de a pessoa ficar bem consigo é repassar o que ela acredita, mesmo que embalada em fake news.

A vítima não foi tolinha ou inocente útil, como muita gente pensa. Apenas tentou se mostrar coerente com a sua opção política ao engolir a fraude. Por mais polêmica e discutível que seja. Mesmo os desinformados sabem se guiar pelas suas conveniências. Não enxergar isso é tachar a maioria das pessoas como massa de manobra. Esse discurso cheira a mofo.

Tão manjado quanto as fake news é o impulsionamento digital, expediente que turbinou a campanha dos candidatos do Partido Novo, por exemplo, que não tinham recursos do fundo eleitoral.

No mesmo “As armas da persuasão” há um capítulo que trata da importância da aprovação social.  Na verdade, buscamos nos outros indícios do comportamento mais apropriado a seguir. Em 1820, em Paris, já se bombava a celebração de um resultado com a venda de um aplauso, mais conhecida como claque.

Aplauso durante o espetáculo custava 10 liras. Aplausos insistentes valiam 15 liras. Interrupções com “Bene” ou “Bravo”, 17 liras… Tal e qual um post patrocinado no Facebook ou Linkedin. O importante era fazer de conta que o espetáculo era uma tremenda curtição.

O expediente esperto, de novo, era a exploração da necessidade do ser humano de ser aceito. Mesmo que o maior beneficiado fosse o produtor da ópera-bufa. A diferença aqui é quem ria por último gargalhava com dinheiro no bolso de um resultado artificial na bilheteria. Igualmente fake.

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Carlos Alencar_quadrado
Carlos Alencar

Diretor Executivo